segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Brasiguaios e “carperos”: direitos em pé de guerra no Paraguai

Enquanto brasileiros dizem ter pago pelas terras paraguaias, os sem-terra alegam que propriedades foram ocupadas ilegalmente no passado


Foto: Marcos Labanca /Gazeta do Povo
Ñacunday, Paraguai - Acampados sob uma linha de transmissão de energia, na divisa entre duas propriedades rurais de produtores de sojas brasileiros, cerca de 10 mil “carperos” – como em espanhol são chamados os que vivem em barracas – aguardam uma decisão do governo paraguaio e a concretização do plano de reforma agrária. “Estamos há 13 anos nesta situação, esperando que nos deem o direito de ocupar as terras que são dos paraguaios por direito”, afirma o líder do acampamento Santa Lucía, Victoriano López, na cidade de Ñacunday, a cerca de 75 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná.
Do outro lado, agricultores brasileiros tentam na Justiça fazer prevalecer o direito que têm sobre as terras, a maioria delas adquiridas há cerca de 40 anos, quando, incentivados pelo presidente Alfredo Stroessner, imigraram para o Paraguai. Neste intervalo, o domínio da agricultura mecanizada fez com que garantissem ao país o título de maior produtor de soja do mundo. “Se hoje temos uma vida confortável, tudo isso foi alcançado com muito trabalho e suor dos nossos pais”, rebate o membro da Coordenadora Agrícola do Paraguai (CAP), em Santa Rosa del Monday, Márcio Giordani.

Marcos Labanca/Gazeta do Povo
Marcos Labanca/Gazeta do Povo / Grupos lutam há 13 anos para obter a posse de 167 mil hectares  de terras 
Grupos lutam há 13 anos para obter a posse de 167 mil hectares de terras
Opinião
Impasse no campo
Ramón Fogel, filósofo e sociólogo estudioso do movimento sem-terra paraguaio
Os conflitos em Ñacunday têm como principal entrave a medição judicial a cargo do Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert). Uma das formas mais seguras de se verificar a situação destas terras seria a medição de acordo com as leis vigentes no Paraguai, o que ainda não aconteceu. Este impasse vem sendo permeado de um lado por um claro caráter etnofóbico e de outro por uma forte rejeição às reivindicações dos campesinos paraguaios.
Ñacunday e as alegações de títulos duplicados ou falsos não são exceções em um país de 406 mil km² que tem, no entanto, 530 mil km² de propriedades registradas. Algumas contam com dois, três e até mais títulos, quando judicialmente apenas um é válido. Se diante disso se mostra insensato opor-se à medição judicial, não menos legítimo é utilizar-se desta proposta de medição para se criar um clima de desestabilização e impasse no campo.

Os primeiros sem-terra chegaram à região há cerca de um ano. Em abril de 2011, um grupo ocupou parte das terras do brasileiro Tranquilo Favero, o maior produtor individual de soja no Paraguai. Em julho, policiais cumpriram a ordem de reintegração de posse e desocuparam a área pacificamente. De volta ao acampamento, passaram a reivindicar uma área vizinha com aproximadamente167 mil hectares que se espalha pelos estados de Alto Paraná e Itapúa, na fronteira com a Argentina. Os carperos exigem que o Estado retome a área que teria sido ocupada e repassada ilegalmente a outros agricultores ainda em 1890.
A reportagem da Gazeta do Povo esteve no Paraguai nesta semana diversas vezes para detalhar o que cada lado alega. Confira:
“Os títulos das nossas terras são todos legais”
Estima-se que atualmente vivam no Paraguai cerca de 350 mil imigrantes e descendentes brasileiros. A maioria agricultores e pecuaristas instalados há quatro décadas nos estados de Alto Paraná, Itapúa e Canindeyú, na fronteira com o Brasil e a Argentina. “São três gerações: filhos e netos de brasileiros, quase todos nascidos aqui, paraguaios como os próprios campesinos, com direitos e deveres iguais”, aponta o representante da Coordenadora Agrícola do Paraguai (CAP) em Santa Rosa, Márcio Giordani, 35 anos, agricultor, paraguaio, filho de brasileiros.
Desde o início do impasse entre carperos e produtores da região, os agricultores têm recorrido à Justiça para provar que não há restrição à posse das terras reivindicadas pelos campesinos de Ñacunday. “Os títulos das nossas terras são todos legais. Foram comprados e pagos. Os bancos aceitam esses documentos como garantia para conceder crédito aos agricultores”, afirma. “Se na época o governo fez alguma coisa errada, não podemos responder por isso”, avalia.
Alvo dos carperos, o Grupo Favero possui 9 mil hectares de terra na área de conflito. Com uma produção anual de quase 400 mil toneladas de soja, cerca de 8% da produção nacional, é responsável por cerca de 2 mil empregos diretos. “Se tudo isto é ilegal, por que o governo nunca questionou a legitimidade destas terras?”, reforça o advogado e representante da companhia, José Costa. “Hoje se viram contra nós, amanhã será contra outros produtores. Este não é um conflito agrário, mas de interesses.”
Diretor estadual da CAP em Canindeyú, o engenheiro agrícola Hermes Aquino classifica o problema como uma questão de ordem social e histórica. “A falta de assistência acompanha os paraguaios há tempos. Vários dos que conseguiram do governo um pedaço de terra na verdade nunca foram nem serão agricultores. E aqueles que realmente querem trabalhar e ainda insistem em plantar passam necessidade sem ter o que comer”, afirma. “Muitos dos que estão aí neste acampamento certamente estão interessados apenas na vantagem que podem ter.”
“Os brasileiros são os verdadeiros invasores”
Transportador de mercadorias em Ciudad del Este, Victoriano López, 59 anos, se apresenta como líder dos carperos de Ñacunday, no Paraguai. Há dois anos como dirigente campesino diz não saber como entrou para o movimento, mas garante não querer terras. “Sempre trabalhei e minha família tem uma boa condição de vida. Não preciso de nada. Estou lutando pelo direito destas pessoas, os legítimos paraguaios, e pela soberania do meu país”, justifica, acompanhado por dezenas de homens, mulheres e crianças do acampamento Santa Lucía.
Sobre o risco de confronto com a polícia ou os proprietários das terras, ele diz acreditar na Justiça, mas admite não poder controlar a multidão que está aguardando uma solução para o impasse. “No início éramos um grupo pequeno. Hoje são entre 7 mil e 10 mil pessoas que exigem o pedaço de chão a que têm direito. Não incentivo a invasão, mas se decidirem ocupar o restante das terras, sozinho não posso fazer nada”, afirma. “As condições são precárias. Crianças estão doentes. Não há o que beber ou comer. Todos estão no limite.”
Por todo lado, táxis e mototáxis indicam que muitos dos que estão no acampamento nunca foram agricultores. Questionado sobre a possibilidade de receberem terras em outra região, López dispensa. “Queremos estas terras, nossas de direito. Tenho certeza que não sairemos de mãos vazias. Daqui só sairemos mortos”, enfatiza. Ele assegura ainda que não haveria problemas em dividir a área com os brasileiros, “desde que se prove e a Justiça aceite que os títulos são legais.”
Na semana passada, um grupo de carperos entregou ao presidente Fernando Lugo um documento com mais de 10 mil assinaturas exigindo a retomada da área de mais de 167 mil hectares entre os estados de Alto Paraná e Itapúa, a mais produtiva do país. “Os brasileiros são os verdadeiros invasores destas terras. Desde 1890 esta área, antes coberta por ervais, e outras que somam 530 mil hectares, vêm sendo ocupadas e vendidas ilegalmente. Os títulos que os brasileiros dizem ser legais são todos falsos. E, se são verdadeiros como dizem, por que não mostram?”, desafia.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012



Foto: Marcos Labanca / H2FOZ
“Uma mãe, cujos filhos são peixes”. Soa estranho para muitos, mas é esta a definição de uma das divindades mais cultuadas no Brasil. Neste dois de fevereiro milhões procuraram as águas para pedir, agradecer e homenagear Iemanjá.

 

Sim, é ela a mãe dos peixes, Ye-omo-ejá, na língua africana, é também a mãe de todos nós. Para os místicos ela representa o poder da geração, a “Grande Mãe”, o “Sagrado Feminino”, a “Dona dos Oris (cabeças)”. Para outros é uma santa, Nossa Senhora dos Navegantes. O fato é que Iemanjá arrasta uma multidão de apaixonados, devotos, curiosos e toda sorte de gente que procura sua proteção.

No Brasil as religiões africanas ainda sofrem com a marginalização e a estereotipagem, decorrentes da falta de conhecimento e dos longos anos de lavagem cerebral. Se o berço da nossa civilização é a África, por que denegrir sua cultura e suas divindades?  Foram aqueles que ajudaram na formação deste País que trouxeram o culto aos orixás, antes deles também havia por aqui somente o culto às forças da natureza. Era o que faziam os povos nativos.

Orixás são forças. Água, vento, terra, chuva, tempo, ar... E acredite ou não, cada ser humano tem o seu. Digo isto porque durante muito tempo acreditei que tudo era apenas mitologia e diga-se de passagem, uma mitologia bela e riquíssima, que merecia ser mais conhecida. Certo dia, uma experiência incomum me fez mudar o pensamento.  Até faz lembrar Caetano, com Milagres do Povo... “Quem é ateu e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar, nem cansam de esperar (...)”.

Pelas mãos de uma índia fabulosa, cujo olhar até hoje guardo na memória, mergulhei numas águas frias e calmas, com um balanço leve e ritmado. Assim, bem devagar fui obtendo algumas respostas que há muito procurava.  Por fim, com os pés e as mãos molhadas descobri que tenho uma mãe que é sereia.





Fernanda Regina Cunha - Especial para o H2FOZ
Fotos e vídeo: Marcos Labanca / H2FOZ

“Carperos” ameaçam invadir fazenda nesta madrugada


Marcos Labanca/ Gazeta do Povo
Marcos Labanca/ Gazeta do Povo / Um grupo pequeno de policiais paraguaios acompanha a distância a movimentação no acampamento sem-terra: tensão cresce a cada dia Um grupo pequeno de policiais paraguaios acompanha a distância a movimentação no acampamento sem-terra: tensão cresce a cada dia
Paraguai

Os sem-terra paraguaios acampados na cidade de Ñacunday, a 75 quilômetros de Foz do Iguaçu, ameaçam ocupar na madrugada desta sexta-feira áreas agrícolas pertencentes a brasiguaios. Pelo rádio transmissor, Rosalino Casco, um dos líderes dos “carperos”, convocou homens, mulheres e crianças para a última reunião antes da invasão. Pulando e aos gritos, com facões e machados nas mãos, o grupo mostrava disposição para um possível enfrentamento. “Aca­­bou a nossa paciência. Co­­mo esse governo [do presidente Fernando Lugo] não resolveu, nós vamos resolver”, disse Casco, pai de seis filhos, todos nascidos no acampamento.
Os “carperos” ingressaram nesta semana com uma denúncia na Corte Internacional da ONU solicitando intervenção para resolver a questão agrária paraguaia. Eles lutam há 13 anos para obter a posse de 167 mil hectares que ficam na fronteira com o Brasil e que, segundo eles, são ocupadas ilegalmente pelos brasiguaios.
Essas propriedades, conhecidas como “terras fiscais”, não poderiam estar sendo ocupadas por fazendeiros estrangeiros, de acordo com a lei paraguaia. “Estamos acampados aqui em condições precárias, sem água, sem energia elétrica, sem alimentos suficientes, e ninguém do governo (paraguaio) veio nos ajudar. Por isso, estamos pedindo socorro à ONU”, disse Victorino Lopez Cardozo, um dos líderes sem-terra.
Armados
Temendo violência no campo, os produtores brasiguaios não só reforçaram a segurança, com armas a tiracolo, como tiraram das lavouras boa parte do maquinário pesado. Teriam aumentado, no entanto, o volume de munições. O acampamento, por sua vez, cresce a cada hora.
Carros dos mais variados, incluindo modelos novos de caminhonetes e jeeps, cruzavam ontem os 40 quilômetros de estrada de terra até a área onde a maior parte dos sem-terra vive. A estimativa é que o número de sem-terra chegue a 10 mil. Os sem-terra pretendem montar pequenas casas de alvenaria onde hoje cresce plantação de soja, principalmente. Eles mesmos deram 24 horas, depois da ocupação, para que as casas já estejam de pé.
Medo
Pedindo para não se identificar, um pequeno agricultor brasileiro não esconde a preocupação em perder os R$ 40 mil que investiu no passado. Em sua área, planta grãos e também começa a criar gados. “Nós viemos para cá para trabalhar, e não vou deixar paraguaio nenhum levar o que consegui com tanto suor”, afirmou um paranaense, casado, sem filhos e que pediu para não ter o nome divulgado.
Um pequeno grupo de sete policiais acompanha o movimento dos sem-terra a distância. De vez em quando, atravessam a rua barrenta do acampamento sem despertar qualquer interesse dos campesinos.

 Publicado em 03/02/2012 | Da Redação, com agência O Globo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A paz por um fio no Paraguai

Armados e dispostos a radicalizar, sem-terra paraguaios exigem que brasiguaios desocupem cerca de 167 mil hectares na fronteira com o Brasil

Foto: Marcos Labanca / Agência de Notícias Gazeta do Povo


O epicentro do mais recente conflito agrário no Paraguai está localizado a 75 quilômetros de Foz do Iguaçu, no departamento de Alto Paraná. Um grupo de 6 mil sem-terra paraguaios, chamados de “carperos”, está acampado há quase um ano no município de Ñacunday, na divisa entre duas propriedades rurais de produtores descendentes de brasileiros.

Eles ameaçam tomar à força uma área de 167 mil hectares espalhados pelos departamentos de Alto Paraná, Canindeyú e Itapúa na faixa de fronteira com o Brasil e a Argentina. Armados e dispostos a radicalizar o movimento, alegam que as terras ocupadas por brasiguaios pertencem ao governo paraguaio e deveriam servir ao projeto de reforma agrária encampado pelo presidente Fernando Lugo.
Os conflitos vêm se acirrando desde o dia 11 de janeiro, logo após uma ordem recebida pelo Exército para que se encarregasse da medição e instalação de marcos nas propriedades que ficam na faixa de fronteira, área de 50 quilômetros desde o limite com os países vizinhos. Uma lei de 2005, recentemente regulamentada pelo governo, proíbe a venda a estrangeiros de terras no denominado cinturão de segurança. Soma-se à lei o interesse dos sem-terra sobre possíveis excedentes de terras que possam ser desapropriadas pelo governo.
 / “Disseram que se eu saísse não poderia mais voltar. Desde então, tenho ido dormir lá pelas 4 horas até que meu irmão levante para continuar a vigília. Medo a gente tem, mas daqui, só saio morto.”
Valdeir Berle, agricultor e filho de brasileiros nascido no Paraguai
Foto: Marcos Labanca / Agência de Notícias Gazeta do Povo
“Disseram que se eu saísse não poderia mais voltar. Desde então, tenho ido dormir lá pelas 4 horas até que meu irmão levante para continuar a vigília. Medo a gente tem, mas daqui, só saio morto.” Valdeir Berle, agricultor e filho de brasileiros nascido no Paraguai
Cronologia
Recorde os últimos fatos que agravaram a crise agrária no Paraguai:
31 jan – Em conversa com o embaixador brasileiro no Paraguai, o presidente Fernando Lugo tranquiliza o governo Dilma sobre a tensão na região de fronteira dizendo que “a última coisa que quer é entrar em conflito com o Brasil e os brasileiros”.
27 jan – O vice-presidente do Paraguai, Federico Franco, acusa o presidente Lugo de não fazer nada para apaziguar os ânimos na região de conflito.
23 jan – Cerca de 6 mil agricultores brasiguaios fazem ato na cidade de Santa Rosa del Monday para denunciar uma nova onda de invasões. De acordo com eles, soldados paraguaios estão ilegalmente demarcando terras que alegam serem da União. Alguns sem-terra acompanham o trabalho dos militares e ameaçam os produtores. A prefeita de Santa Rosa, María Victoria Salinas Sosa, é agredida pelos sem-terra.
1º dez 2011 – Três mil produtores rurais dos estados de Alto Paraná, Itapúa, Canindeyú, Caaguazú e San Pedro protestam na cidade de Minga Guazú contra um decreto presidencial que regulamenta a chamada Lei de Segurança Fronteiriça. A nova regra estabelece uma faixa de segurança de 50 quilômetros que se estende ao longo da fronteira do Paraguai com Argentina, Brasil e Bolívia. Conforme estabelece a Lei 2.532/05, imigrantes de países vizinhos e empresas com capital de maioria estrangeira não poderão ser proprietários de terras nas regiões limítrofes.
Origens
De convidados a invasores
A intolerância contra brasiguaios surgiu às vésperas da queda do ditador Alfredo Stroessner, em 1989. Foi pelas mãos do generalíssimo que colonos brasileiros, em especial gaúchos e paranaenses, começaram a chegar no início da década de 1970, atraídos por terras baratas e crédito bancário. À época, Stroessner mandou publicar anúncios em grandes jornais brasileiros oferecendo terras a preços módicos. A colonização da fronteira iniciara-se uma década antes, com a venda de grandes latifúndios a companhias estrangeiras agroindustriais.
Leia a matéria completa
Vigília noturna
Apesar das ordens judiciais de reintegração de posse, os carperos resistem e pressionam os produtores. Valdeir Berle, filho de brasileiros nascido no Paraguai, diz temer os ataques, mas que espera uma solução pacífica para o conflito. “Vie­ram no meu portão ordenando que eu deixasse a propriedade. Dis­­seram que se eu saísse não poderia mais voltar. Desde então, tenho ido dormir lá pelas 4 horas até que meu irmão levante para continuar a vigília. Medo a gente tem, mas daqui, só saio morto.”
Representantes dos agricultores têm buscado o apoio de políticos paraguaios na defesa da propriedade privada e dos títulos de terras dos brasileiros. “Nossa situação é totalmente legal. Nossos pais chegaram aqui e, com trabalho sério, começaram a mudar a realidade desta região há mais de 40 anos. Somos filhos de brasileiros, nascemos aqui, somos paraguaios, e herdamos estas terras”, afirma Márcio Giordani, membro da Coordenadora Agrícola do Paraguai (CAP), em Santa Rosa del Monday.
Ultimato
Na úlima segunda-feira, líderes dos sem-terra exigiram a posse dos 167 mil hectares, a maioria de propriedade de brasileiros e descendentes, e deram prazo de uma semana para o governo se posicionar. No dia seguinte, voltaram a reclamar as terras e adiantaram que, independentemente da resposta ao pedido, deflagrariam uma nova onda de invasões, a começar pelo município de Ñacunday. No mesmo dia, o presidente Lugo, após reunião com o embaixador do Brasil em Assunção, Eduardo Santos, procurou tranquilizar os brasileiros afastando o risco de conflitos entre paraguaios e brasileiros.
Líderes ruralistas alegam que as ameaças e as ocupações são orquestradas e apoiadas pelo próprio governo. “Existem muitos interesses sobre estas terras. Há muita promessa e muita gente sendo usada. Quem o governo deveria ajudar, como os assentados, por exemplo, não ajuda. Estes estão passando fome. Ou seja, estamos diante de um problema social e político”, rebate o representante da CAP em Canindeyú, Hermes Aquino.
Em editorial, jornal critica xenofobia
Três dos principais jornais de circulação nacional no Paraguai destacaram ontem os conflitos entre brasiguaios e carperos na região de Santa Rosa del Monday, no Alto Paraná, próximo à fronteira com o Brasil, segundo a Agência Brasil. O maior jornal paraguaio, o ABC Color, dedicou o editorial ao assunto criticando duramente a xenofobia contra os agricultores brasileiros.
Em sua versão online, o ABC Color disse que os sem-terra do país fazem campanha para acabar com a propriedade privada no Paraguai. De acordo com o texto, há um “espírito distorcido e um falso nacionalismo” que conduzem a atos de “clara xenofobia”. No editorial, o jornal alerta sobre “consequências embaraçosas” para a paz social na região.
A principal notícia publicada no jornal Última Hora se refere à determinação do governo de aumentar a segurança nas áreas de conflito no Paraguai – os departamentos de Alto Paraná e Itapúa, ambas na fronteira com o Brasil. A estimativa é que 350 mil brasileiros vivam em território paraguaio – a maioria é agricultor.
No jornal Diário Popular, o destaque é a ordem do presidente paraguaio, Fernando Lugo, ao mi­­nistro do Interior, Carlos Filizzola, para que garanta segurança aos brasiguaios e aos sem-terra do Paraguai, evitando o agravamento da crise. O apelo ocorre no momento em que homens da Polícia Nacional apelam por reajuste salarial.
 
 
 Fabiula Wurmeister, enviada especial / Foto: Marcos Labanca
Matéria veiculada no jornal Gazeta do Povo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Foz discute Carta da Terra em abril

O diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu, Nelton Friedrich, propôs a realização de um encontro, no dia 22 de abril, em Foz do Iguaçu, para discutir as principais experiências desenvolvidas no Brasil com base na Carta da Terra, uma declaração de princípios éticos e sustentáveis reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia é articular uma ação conjunta de comunicação para uma apresentação na conferência Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro.
 
A proposta do encontro já foi apresentada à Secretaria Internacional da Carta da Terra, com sede na Costa Rica, e ratificada no último sábado (28), em Porto Alegre, no seminário Atualidade da Carta da Terra e a Rio+20. O seminário, realizado dentro da programação do Fórum Social Temático (FST 2012), lotou o principal auditório da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e reuniu alguns dos principais expoentes da causa ambiental no País.
 

Seminário sobre a Carta da Terra lotou o principal auditório da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
 
Entre os presentes na mesa, estavam o teólogo e escritor Leonardo Boff, um dos autores da Carta da Terra; a ex-ministra de Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva; Paulo Roberto Padilha, do Instituto Paulo Freire; Rubens Born, coordenador do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (FBOMS); e Ricardo Young, conselheiro do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS).
 
O dia 22 de abril não foi escolhido por acaso: nesta data é comemorado o Dia Internacional da Mãe Terra. “Queremos que representantes dessas experiências em andamento, das iniciativas que aplicam a Carta da Terra, se encontrem para se conhecer e definir uma tática e uma estratégia na Rio+20. E, quem sabe, construir uma política de comunicação dessas iniciativas, que podem ter replicabilidade no País”, comentou Nelton, que fez parte da mesa para falar do Programa Cultivando Água Boa (CAB).
 

Nelton Friedrich fala sobre a experiência do Cultivando Água Boa em 29 municípios da Bacia do Paraná 3.
 
A ex-ministra Marina Silva destacou que as mobilizações até a conferência do Rio de Janeiro serão importantes para fortalecer a luta contra retrocessos na legislação ambiental - como o Código Ambiental. “E também para sairmos da Rio+20 com uma agenda de compromisso e uma avaliação à altura da gravidade dos problemas que estamos vivendo”, comentou.
 
Na avaliação da ex-ministra, o encontro em Foz do Iguaçu seria parte deste esforço. “Com certeza. E com a potência de um grupo [Itaipu] que há muito tempo vem fazendo essa discussão, procurando traduzir do ponto de vista de uma ação prática efetiva nas comunidades e locais que atua”, completou.
 

Marina Silva sentou-se ao lado de Friedrich. Ex-ministra disse que Carta da Terra "tem vários endereços".
  
A secretária-executiva do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Alexandra Resthke, que coordenou o seminário, disse ser importante que ações em andamento com base na Carta da Terra sejam conhecidas para inspirar outras iniciativas. “Essa proposta de nos encontrarmos para compartilhar tudo o que está acontecendo com base na pedagogia da Carta da Terra é excelente. Que possamos sim realizar esse sonho”, disse, citando o próprio Cultivando Água Boa como exemplo a ser seguido.
 
Seminário

A Carta da Terra é um documento global, que foi discutido ainda na conferência sobre o clima no Rio de Janeiro, em 1992, e lançado em 2000, com articulação, entre outras personalidades, do ex-líder da extinta União Soviética, Mikhail Gorbachev.  Em 2005, em Amsterdã, na Holanda, o Programa Cultivando Água Boa foi reconhecido com o Prêmio Carta da Terra como uma das melhores práticas socioambientais do planeta.
 

Leonardo Boff, um dos articuladores da Carta da Terra, foi o último a falar no seminário. E um dos mais aplaudidos.
 
“A Carta da Terra nos dá alicerce para os ‘Ps’ das políticas públicas. Nos ensina a olhar para o ‘p’ das populações vulneráveis; nos dá o ‘p’ da participação; nos dá outro ‘p’, o da pressa para as transformações; o ‘p’ da perseverança, da paz e da plenitude”, disse Rubens Born, na sua participação no seminário em Porto Alegre.
 
“Acho a Carta da Terra fundamental. Porque propõe um novo nível de consciência ética que, se não for interiorizada nas pessoas, não vai provocar mudanças no mundo”, declarou Ricardo Young, do IDS.
 

Grande estrela da delegação da Bacia do Paraná 3 no FST 2012, Maryanne Francescon, de 15 anos, moradora de Medianeira, voltou a tocar e a encantar o público com sua gaita ponto. Marina Silva, uma das mais entusiasmadas, disse que a música de Maryanne a fez lembrar das histórias da infância e da juventude, nos seringais do Acre.
 
Para Marina Silva, a Carta da Terra “tem endereços que devem ser visitados”. A ex-ministra cita os maiores poluentes do planeta como destinatários do documento, como os Estados Unidos e a China, e também os países mais pobres, que precisam adotar modelos diferenciados de desenvolvimento. “Esses países não podem resolver seus problemas com o mesmo modelo dos países desenvolvidos”, comentou.

JIE / Itaipu

Ecomuseu ganha nova mostra fotográfica



Rogério Ghomes durante a montagem da mostra: obras do artista são mais um atrativo do Ecomuseu, que reabre ao público nesta quarta (1º).

O fotógrafo e designer paranaense Rogério Ghomes foi o artista escolhido para a reinauguração do Espaço das Artes do Ecomuseu. A mostra “Todos precisam de um espelho para lembrar quem são”, que pretende levar o visitante a uma reflexão sobre os pequenos instantes, como se elas compusessem os frames de memória, ficarão expostas por seis meses no local. A entrada custa R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia) e permite acesso às demais áreas do museu.
  
A obra “Ainda escuto barulhos de água”, composta por uma série de fotos da primeira hidrelétrica de Londrina, completa o acervo temporário de Ghomes no Ecomuseu. “Cada espaço oferece uma situação diferente. Aqui em Itaipu eu trouxe estas cenas da hidrelétrica, para que o público reflita sobre esta relação com a água”, explica.

   
Doutorando em tecnologias da inteligência e design digital pela PUC-SP, Ghomes possui obras nas coleções do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), na Coleção Pirelli do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) e no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC).

 
Antes de Itaipu, a mostra “Todos precisam de um espelho para lembrar quem são” passou por Buenos Aires, Brasília e Curitiba.


Como visitar

O Ecomuseu fica aberto de terça a domingo, das 8h às 17h. Para visitação individual ou em grupos de turismo, os ingressos devem ser adquiridos no Centro de Recepção de Visitantes (CRV), na Avenida Tancredo Neves, 6731, ou pela internet, no site https://www.turismoitaipu.com.br/.

O atendimento por telefone é feito pelos números 0800 645 4645 ou +55 45 3520 6676. O valor é de R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia entrada). Para visitas institucionais, feitas em grupo, o contato para reservas é o (45) 3520-5626.


JIE / Itaipu

Greve pode ocasionar falta de dinheiro em caixas eletrônicos, diz sindicato

Estimativa do Sindicato dos Trabalhadores de Transporte de Valores e Escolta Armada do Paraná (Sindeesfort-PR) é de que poderá faltar dinheiro nos caixas eletrônicos já nesta sexta

A greve no Paraná dos seguranças que trabalham no transporte de valores com carros-fortes pode afetar o abastecimento de dinheiro nos caixas eletrônicos. A estimativa do Sindicato dos Trabalhadores de Transporte de Valores e Escolta Armada do Paraná (Sindeesfort-PR) é de que poderá faltar dinheiro nos caixas eletrônicos já nesta sexta-feira (3). A categoria entrou em greve por tempo indeterminado a partir desta quarta-feira (1º). Com a paralisação, a distribuição de dinheiro para as agências bancárias de todo o estado deve ser prejudicada.
O presidente do Sindeesfort-PR, Paulo Sérgio Gomes, afirmou que os caixas eletrônicos não operam no limite máximo por causa dos ataques constantes que foram registrados e por isso o desabastecimento pode ocorrer ainda nesta semana.
A decisão pela paralisação foi confirmada na noite de terça-feira (31), em assembleia da categoria. A previsão do Sindicato dos Trabalhadores de Transporte de Valores e Escolta Armada do Paraná (Sindeesfort-PR) é de que a maioria dos 1,8 mil seguranças de transporte de valores tenha aderido à greve.
O Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região Metropolitana também disse que a possibilidade de haver falta de dinheiro nos caixas eletrônicos é grande.
Sobre os caixas físicos, o sindicato afirmou ser remota a possibilidade de os bancos ficaram sem dinheiro. Segundo o sindicato dos bancários, pode haver desequilíbrio em algumas agências, principalmente naquelas que fazem mais pagamentos do que recebimentos. Como há reservas e os bancos também seguem fazendo cobranças, a entidade não acredita que chegará ao ponto de haver desabastecimento nos caixas físicos.
A segurança no interior das agências bancárias não apresenta problemas, pois os vigilantes patrimoniais não entraram em greve.
A reportagem entrou em contato com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), por volta das 8h40, para saber se existe a possibilidade de haver desabastecimento nos caixas físicos e aguarda o retorno.
Interior do Paraná
Vigilantes que trabalham em empresas de transporte de valores em Londrina também entraram em greve na manhã desta quarta-feira (1º). Segundo o delegado sindical da categoria, Odair José Ferreira dos Santos, outras cidades como Maringá e Cascavel também participam do movimento, com 100% de adesão.
Reivindicações
Segundo Gomes, disse que o impasse surgiu na semana passada, quando foi aprovado, no dia 26 de janeiro, um indicativo de greve . Como a proposta patronal não melhorou, a paralisação foi confirmada. “Não houve nova proposta e mantiveram o que foi ofertado lá atrás, que era a reposição da inflação mais a renovação da convenção coletiva por dois anos.” O sindicato pede aumento acima da inflação.
A categoria reivindica reajuste salarial de 13%, convênio médico totalmente custeado pelas empresas, e inclusão do adicional de 30% por risco de vida no 13º salário e nas férias.
Além dos seguranças de carros-fortes, os chamados de tesoureiros também estão em greve. Eles são responsáveis pela montagem de malotes e contagem de dinheiro nas empresas.
A reportagem tentou entrar em contato com Sindicato das Empresas de Transporte de Valores do Paraná na noite desta terça-feira e também na manhã desta quarta-feira, por volta das 10h30, mas não obteve sucesso.
Vigilância patrimonial
Por outro lado, os funcionários que trabalham com vigilância patrimonial, como os vigilantes que ficam dentro de agências bancárias, aceitaram a proposta patronal e fecharam acordo de reajuste salarial na noite desta terça-feira (31). De acordo com o Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e Região Metropolitana, cerca de 70% dos trabalhadores presentes na reunião da categoria concordou com o acordo.
O secretário geral do Sindicato dos Vigilantes, Ademir Pincheski, disse que a proposta foi aceita porque representou ganhos acima da inflação. “O reajuste total na massa salarial foi de 11,78%. Como a inflação no período (janeiro de 2010 a janeiro de 2012) deve fechar em 5,72% tivemos um aumento de 6,06% acima da inflação”, argumentou.
Pelo acordo, o piso salarial dos vigilantes patrimoniais subiu 6,94% e passou para R$ 1.140,00.
Já o adicional de risco de vida subiu 34,3% e passa a ser de R$ 180 por mês. O vale alimentação subiu 19,2% e será de R$ 15,50 por dia trabalhado, a partir de fevereiro.
  
Fernanda Leitóles, Heliberton Cesca e Amanda de Santa, do Jornal de Londrina